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AUTOPOIESE  INTRAPESSOAL

Vladimir Dimitrov e Robert Ebsary

O que é autopoiese intrapessoal
Humberto Maturana e Francisco Varela introduziram a idéia de autopoiese como uma forma de organização sistêmica, na qual os sistemas produzem e substituem seus próprios componentes, numa contínua articulação com o meio. Os sistemas autopoiéticos são autocatalíticos, isto é, não apenas estabelecem, mas também mantêm uma fronteira peculiar com o mundo circundante — fronteira essa que simultaneamente os separa do meio ambiente e o conecta com ele. Os seres humanos são exemplos de sistemas autopoiéticos — eles se reproduzem numa co-evolução incessante com o meio: as pessoas respondem, (ou seja, reagem, adaptam-se) às mudanças do ambiente e este responde (reage, "adapta-se") à intervenção humana.

Cada indivíduo tem característica que refletem sua estrutura interna peculiar. Essa estrutura está aberta às mudanças: inevitavelmente evoluímos, no curso de nossas vidas. Como as pessoas dividem entre si o que experimentam e o que sabem (ou pensam que sabem) acerca de si mesmas e do mundo, muitas semelhanças se originam das maneiras pelas quais elas vêem, interpretam e entendem os fenômenos vitais. Mesmo assim, cada indivíduo expressa seu self como uma personalidade única, desde a infância até a velhice. Em todo ato físico, emocional, mental ou espiritual, o self de cada indivíduo reproduz a si próprio, mantendo uma fronteira peculiar com o mundo circundante e "evoluindo" em harmonia com ele. A reprodução e evolução do self de cada indivíduo, em conexão vital com o seu meio ambiente, é o que chamamos de autopoiese intrapessoal.

O self  individual
Segundo as antigas escrituras védicas, o self é o gênio fundamental e supremo da natureza, que espelha a sabedoria do cosmos. Esse gênio está dentro de cada um de nós, como parte de nosso esquema interno, e não pode ser apagado.Uma definição científica do self pode basear-se na semiótica: o self individual surge como uma escolha conceitualizada de indicadores que traduzem, para usar uma boa analogia, a sensação que temos de estar "em casa" com nossos sentimentos e pensamentos. Por meio do estudo dessa escolha, e relacionando-a às condições espaciais e temporais sob as quais ela foi feita, o indivíduo pode buscar a sua identidade e autenticidade.

A busca da identidade e da autenticidade conduz a um ícone, que representa um signo do self de cada um. Esse ícone evolui com o correr do tempo. Entender o que ele significa a cada instante constitui a essência do autoconhecimento — o processo central da autopoiese intrapessoal.

Autoconhecimento
Trata-se de um processo que inclui três vertentes:

  1. Conhecimento do ideal (CDI), que busca respostas para a questão: "Que espécie de personalidade ideal eu gostaria de desenvolver (nutrir, fazer crescer, concretizar) em mim mesmo?"

  2. Conhecimento dos obstáculos no caminho para o ideal (COI). Aqui, o objetivo é responder à pergunta: "Que tipo de obstáculos (externos ou internos) me impedem de alcançar (desenvolver, concretizar) o meu ideal?

  3. Conhecimento da energia individual (CEI). Esse conhecimento procura respostas para a indagação: "Como posso ampliar e utilizar melhor o meu potencial (poder, força de vontade, determinação) para lidar com (ou superar) os obstáculos que há no caminho para o meu ideal?

Como as três gunas (termo sânscrito para designar as qualidades fundamentais da natureza humana, descritas na antiga filosofia iogue de Patanjali), as três vertentes do autoconhecimento jamais estão em equilíbrio: elas mudam sempre, de modo que a cada momento uma delas prevalece. Se predomina o conhecimento do ideal (CDI), estamos com freqüência num estado contemplativo ou onírico — seja gerando ativamente idéias, planos, visões e cenários de futuro, seja imaginando passivamente que estamos em algum estado ou condição ideal. Caso predomine o conhecimento dos obstáculos no caminho para o ideal (COI), é possível que nos sintamos deprimidos: podemos estar cônscios do quão difícil seria alcançar o estado ideal (tal como o vemos em nosso sonhos, planos e visões) e de quanto esforço, conhecimento e vigilância seriam necessários para mantê-lo. Na situação em que prevalece o conhecimento da energia individual(CEI) estamos em geral num ânimo ativo e criador — agimos na direção de pôr em práticas as nossas idéias, planos e sonhos.

Como de costume, as três vertentes acima interagem mutuamente por meio de vários ciclos de feedbackpositivo e negativo. O caminho mais promissor para a auto-realização e o crescimento pessoal parece ser o feedback positivo entre o CDI e o CEI. A imagem do ideal estimula as ações humanas e estas o tornam mais real, próximo e alcançável. Um círculo de feedback negativo entre o CEI e o COI parece agir contra a auto-realização e o crescimento individual. Quanto menos ativos estamos, mais obstáculos surgem no caminho para os nossos ideais e vice-versa.

As vertentes de autoconhecimento e seus modelos interativos emergem da conexão estrutural com o meio ambiente, onde ocorre a experiência humana. A esse meio damos o nome de espaço experiencial humano. Ele proporciona o contexto no qual a autopoiese intrapessoal se manifesta.

O espaço experiencial humano
Examinemos as principais características desse domínio.

O espaço experiencial humano é caótico, porque:

  1. Não podemos prever quais os padrões de experiência que vão surgir em nossas vidas, nem mesmo a curtíssimo prazo;

  2. Mudanças mínimas nas narrativas que fazemos a nosso respeito, e sobre o mundo em que vivemos, podem provocar alterações dramáticas em nossa experiência cotidiana;

  3. Modos de comportamento aparentemente simples e rotineiros podem levar a modelos experienciais extremamente complicados.

O espaço experiencial humano é multidimensional, porque:

  1. Um número quase infinito de fatores inter-relacionados, "internos e externos", contribui para a nossa dinâmica experiencial;

  2. Forças auto-organizadoras emergem da turbulência dessa dinâmica e são responsáveis pela evolução humana.

O espaço experiencial humano não obedece à linearidade do tempo:

  1. Tanto o passado quanto o futuro se encontram nos modelos experienciais do tempo presente;

  2. A natureza de um evento experiencial reflete diretamente a percepção humana num determinado instante.

Atratores estranhos1 (ou atratores caóticos) surgem e desaparecem no espaço experiencial humano:

  1. A vida humana se bifurca de um atrator para outro;

  2. Os atratores de nossa experiência sensorial são estruturas dissipativas, isto é, vão diminuindo e se dissipando à medida que convergem para o atrator final, que é a morte física.

A experiência humana tem uma tendência a se fixar num atrator estranho específico do espaço experiencial humano:

  1. Com muita freqüência este atrator é aquisitivo, orientado para o ganho — ligado à busca do bem-estar material (ou da fama, do poder, do prazer, do conhecimentos etc.);

  2. A força auto-organizadora que emerge desse tipo de atrator mantém sempre a mesma direção — no caso, para a aquisição cada vez maior (de dinheiro fama, prazer, conhecimento etc.);

  3. Com a dissipação (retração, diminuição) do poder do atrator, a intensidade de sua força auto-organizadora diminui.

Dois fatores — inspiração e intenção — desempenham um papel crucial nos processos de autoconhecimento e são indispensáveis para as manifestações externas e internas da autopoiese intrapessoal.

Inspiração
A inspiração proporciona energia ao espaço experiencial humano e prolonga a vida dos atratores que ali pulsam. Ela pode também fornecer a energia necessária para um salto súbito (de um atrator para outro). O impacto crucial da inspiração implica que ela pode provocar a emergência de novos atratores e, assim, constitui um poderoso estimulador da criatividade humana.

Como a criatividade, a inspiração ocorre espontaneamente em nosso espaço experiencial. Sabemos que buscar inspiração ou pretender ser espontâneo é algo que não funciona na prática. Pelo contrário, iniciativas como essas criam obstáculos à deflagração do flash inspirador. Entretanto, há muitos catalisadores poderosos da inspiração, sejam eles externos (belos cenários, personalidades marcantes, música, quadros, leituras etc.), ou internos (realizações individuais, força de vontade, experiências amorosas, fé, esperança etc.). Diferentes catalisadores podem ter efeitos inspiradores diversos em diferentes indivíduos.

A dinâmica de qualquer atrator orientado para os ganhos materiais no espaço experiencial humano (mesmo os ligados à acumulação do conhecimento) pode ser reforçada, mas nunca inspirada. A fixação a um determinado atrator não pode ser inspirada. Quando se tenta reforçá-la, em geral o resultado é a exaustão desse atrator. No entanto, um ato de genuína inspiração pode ajudar uma pessoa a resistir às forças de algum atrator prejudicial ao corpo e à mente, e assim livrá-la de fixações excessivas. (Os Alcoólicos Anônimos são um exemplo de inspiração espiritual, que ajuda as pessoas a lidar com o poder prejudicial do alcoolismo). Qualquer esforço espiritual genuíno necessita de um lampejo de inspiração, do contrário perde em sinceridade e fenece rapidamente.

A inspiração é necessária para proporcionar energia à procura da identidade e da autenticidade, que por sua vez são importantes para a busca auto-realização, iluminação e sabedoria. Não se trata de um fenômeno "logocêntrico", isto é, ela não se baseia em nenhum sistema logicamente consistente de pensamento, que proclama sua legitimidade amparando-se em proposições externas e universalmente válidas. Fundamenta-se, ao contrário, em lógicas humanas e auto-constituídas, que são circulares, auto-referenciadas e portanto paradoxais.

Por ser estimuladora da criatividade, a inspiração precisa ser intermitente (descontínua) em termos de causalidade: as cadeias causa-efeito se desfazem diante de sua lucidez. Qualquer análise a posterioride como a inspiração funciona possivelmente revelará relações de similaridade geométrica entre trajetórias experienciais, e não ligações de coerência entre causas físicas. Portanto, os mecanismos geométricos parecem ser adequados para "mapear" (localizar) eventos inspiradores no âmbito das dinâmicas experienciais.

Intenção
Em contraste com a inspiração, a intenção é um fenômeno logocêntrico, ou seja, baseado em um sistema logicamente consistente de pensamento. O pensamento lógico, a análise causa-efeito e a acumulação de conhecimentos teóricos e práticos nos ajudam a determinar nossas metas, propósitos e objetivos, e a escolher as abordagens por meio das quais eles podem ser alcançados. A intenção orienta os fluxos de energia no espaço experiencial humano. A força de vontade individual é diretamente responsável pela manutenção da intencionalidade humana. Sem ela (e sem todos os demais esforços físicos e mentais dela emanados) a energia da inspiração se dissolve irreversivelmente.

A inspiração faz nascer novos atratores no espaço da experiência humana, mas é a intenção que escolhe para onde deve se orientar a nossa atividade. A mera geração de muitos atratores, sem que sejam desenvolvidos esforços suficientes para assimilar suas finalidades e entender a sua natureza, pode ser muito destrutiva. Na antiga fábula, o jumento morre de fome porque é incapaz de escolher entre duas fontes atraentes de alimento. Na fábula do nosso tempo, a humanidade está matando o seu meio ambiente (e portanto a si própria), porque é incapaz de entender a natureza perigosa de muitos dos atratores criados pelo pensamento linear atualmente dominante, e também porque está fortemente orientada (de forma exaustiva e competitiva) para o ganho e a acumulação de bens materiais, prestígio e prazer.

A compreensão dos atratores que atuam no espaço experiencial humano requer um certo esforço. Entretanto, antes disso é necessária a intenção de estarmos atentos ao que acontece em nossas vidas. Em sua maior parte, os eventos da vida humana são extremamente sutis e ligados às delicadas esferas dos mundos mental, emocional ou espiritual de nossa individualidade. Para poder sentir e entender o que acontece nesses domínios, precisamos de extrema atenção, vigilância e cuidado. Essas qualidades devem ser intencionalmente descobertas em nosso íntimo e por nós mesmos. Ninguém de fora pode injetá-las em nós, tornar-nos cônscios do que acontece em nosso espaço experiencial interior. Esse espaço é sagrado, e só nós próprios podemos ter acesso a ele — o espaço sagrado interior de um indivíduo é o lugar onde funciona a sua autopoiese intrapessoal.

"Não me siga, siga a você mesmo"
Essa frase famosa é de Nietzsche. Ela se relaciona fortemente com o funcionamento da autopoiese intrapessoal. Significa que o processo autopoiético que se manifesta num determinado indivíduo não pode ser transplantado para o espaço interno de outro. Se você segue os outros em vez de ser você mesmo, perderá rapidamente a sua centelha e deixará de refletir a luz de sua individualidade. Sem esta, não há auto-atenção, crescimento pessoal nem progresso na vida.

Seguir outra pessoa (seja mentalmente, emocionalmente ou espiritualmente) significa copiar, imitar ou identificar-se com o mecanismo de autopoiese intrapessoal do outro e esquecer o seu self real. Essa circunstância pode resultar em conflitos fatais entre o self e a mente (confusão de pensamentos), entre o self e o coração (confusão de sentimentos) e entre o self e o espírito (confusão na busca da identidade). A autopoiese intrapessoal precisa de liberdade para funcionar. A partir do momento em que nos rendemos a algum outro self, nossa liberdade é perdida e nos tornamos incapazes de auto-expressão. A falta de liberdade torna a auto-percepção impossível e resulta na perda de oportunidades individuais para o autoconhecimento, auto-realização e crescimento.

Capacidade de Aprender
A capacidade individual para a aprendizagem é crucial para o estabelecimento, seja ele espontâneo ou intencional, de conexões e interdependência entre os eventos experienciais e seus modelos e processos. Se encararmos os eventos e os processos como fenômenos interconectados, poderemos extrair deles muitos significados e, dessa maneira, utilizá-los como lições pessoais de vida.

Infelizmente, nossa capacidade para apreender o significado de nossas experiências é bastante limitada. Somos capazes de refletir apenas sobre os pontos de mutação globais de nossas vidas, e eles são muito poucos. Há uma infinidade de eventos minúsculos, de difícil percepção, que acontecem incessantemente e influenciam de modo decisivo o nosso modo de viver. É possível aprender a percebê-los? A resposta positiva se relaciona, mais uma vez, com o despertar da percepção.

A percepção humana é infindável. Uma vez aberta, ela se espraia e ajuda a ver mais e mais as coisas que acontecem em nosso cotidiano — mas não a percebê-las como acontecimentos isolados e insignificantes, e sim como constituintes vitais de uma teia integral e dinâmica, que pulsa em cada um de nós e daí se estende a todas as criaturas animadas e inanimadas do Universo.

Nascemos para perceber a nós mesmos. O que precisamos é aprender como fazer emergir essa propriedade inerente, como retirá-la de debaixo das camadas de preconceitos, estereótipos, hábitos e ignorância, que se acumularam durante de anos e anos de obediência cega a instruções alheias, ou no desempenho de atividades nas quais nos comportamos como robôs, no bojo de atratores orientados para ganhos exclusivamente materiais. As técnicas de concentração, contemplação e meditação, especialmente ajustadas à natureza de cada indivíduo, podem ajudar de modo decisivo no aguçamento de nossa capacidade de aprender a partir dos eventos da vida, não importando o quão insignificantes eles pareçam ser.

Conclusão
De todas as experiências que podemos viver, a do nosso self interior é a mais importante. Nossos corpos estão sempre mudando. Nossas mentes, com seus pensamentos, sentimentos e desejos, também vêm e vão. Num caso e no outro, trata-se de experiências fechadas no tempo e no espaço: não devem ser confundidas com as pessoas que as experimentam.

D. Chopra observa que "aquele que passa por uma experiência está além do tempo e do espaço. Representa o fator atemporal que há em toda experiência limitada pelo tempo. É ele quem que sente o que está por trás dos sentimentos, quem pensa os pensamentos, quem anima os nossos corpos e mentes". Ele é o nosso self. Sua reprodução e evolução constitui um entrelaçamento indissolúvel com o Universo e está no centro da autopoiese intrapessoal, cujo entendimento equivale ao entendimento de nós mesmos — e essa é a mais elevada das compreensões.

Nota
1. Um atrator é um centro para onde determinadas energias são atraídas. Por exemplo, a aquisição de dinheiro, poder e bens materiais é o atrator para onde se dirige grande parte das energias da nossa cultura. Os atratores são estruturas importantes na teoria dos fractais. Este termo vem do latim fractus, que significa irregular e fragmentado. Os fractais são figuras representativas da geometria do caos e mostram que nele há também uma ordem. Num fractal, cada parte reproduz com exatidão todas as características da totalidade. Os sistemas dinâmicos (os seres vivos, por exemplo) podem assumir comportamentos incertos e caóticos, que os físicos e matemáticos representam graficamente por meio de fractais — os chamados "atratores estranhos" ou "atratores caóticos".

Referências bibliográficas
MATURANA, H. and VARELA, F., 1987. The Tree of Knowledge. Boston: Shambala.
LUHMANN, N., 1990. Essays on Self-Reference. New York.
McNEIL, D. and DIMITROV., 1998. Topology of Uncertainty, in Fuzzy System Design: Social and Engineering Applications, Ed. L.Reznik and V. Dimitrov, Heidelberg: Physica Verlag.
CHOPRA, D., 1994. Journey into Healing. New York: Harmony Books.

(Março, 2000)

VLADIMIR DIMITROV é pesquisador do Centre for Systemic Development da University of Western Sidney – Awkesbury, Austrália. O co-autor deste estudo, ROBERT EBSARY, já falecido, pertencia à mesma universidade. 

E-mail: v.dimitrov@uws.edu.au


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